Resumo A cidade e as serras

A cidade e as serras - Restaurando a casa portuguesa
Resumo
Partindo das noções de decadentismo, discutiremos, neste ensaio, as
representações de duas personagens ecianas – Fradique Mendes e Jacinto –
procurando demonstrar a influência do pessimismo e do desencantamento com
a vida na trajetória dessas personagens, relacionando-as às imagens da pátria
portuguesa.
À partir des notions de décadentisme, on va discuter, dans cet travail, les
représentations de deux personnages ecianas – Fradique Mendes et Jacinto –
en essayant de démontrer l’influence du pessimisme et du désenchantement
avec la vie, dans la trajectoire de ces personnanges, en établissant une relation
entre ceux-ci et l’images de la patrie portugaise.
Mots-clés: décadentisme, pessimisme, civilization, identité portugaise
O século XIX viu aflorar uma certa idéia de decadência, como diz Michel
Décaudin (1976:5) em Definir la Décadence. O espírito de modernidade que se
desenvolve a partir da progressiva urbanização das cidades e sua conseqüente
superpovoação e industrialização trouxe, para muitos, um certo pessimismo
diante da vida e do mundo. A cidade, centro de convivência, de encontros
culturais, lugar onde se satisfazem os prazeres carnais e usufrui-se o gozo da
civilização, tornou-se também imprópria para aqueles que já experimentaram de
tudo, não encontrando nela novidade alguma. A monotonia das coisas
desencadeia o tédio e a vida vai perdendo o sentido e a graça.
O espírito de decadência começa a germinar e influenciar a vida de alguns
homens, cosmopolitas por excelência, acostumados ao fervilhar cultural,
econômico e social desses grandes centros. Diante das atividades rotineiras da
modernidade, surge a reflexão sobre a insatisfação com o presente, a certeza
1
de que tudo já foi dito, realizado, escrito. A melancolia é a certeza de quem vive
a mesmice do quotidiano. Não há nada a fazer, "La chair est triste, hélas! et j’ai
lu tous les livres." Como diz Mallarmé.
Na Europa, Paris é o grande centro, onde se encontram escritores e gênios da
arte, de uma forma geral. É lá também o lugar das delícias terrenas. Emigrando1
de Portugal, um país provinciano, agrário e estático, tanto Fradiquepersonagem
de A correspondência de Fradique Mendes (QUEIRÓS, 1946)
quanto Jacinto- personagem de A Cidade e as Serras (QUEIRÓS, 1971) vão
viver a vida parisiense. Oriundos de famílias patriarcais, tradicionais, ricas e
respeitadas, essas duas personagens têm a juventude, o recurso econômico e a
disposição para gozar a vida e os vícios da modernidade.
Por um lado, Jacinto é a imagem do homem rústico, que, por um tempo,
abandona o campo e se instala na cidade, numa representação do emigrante
bon vivant e que, cansado do excesso de civilização, encontra nas serras a sua
restauração e longa vida. Do outro lado, Fradique é o flâneur, que passeia pelo
mundo sem se deixar influenciar por ele, passando a ser dominado pelo
pessimismo e conseqüente declínio e morte. O dandismo aproxima a
caracterização de ambos, mas há diferenças singulares na construção deles,
como veremos a seguir.
N’A Correspondência de Fradique Mendes, o narrador, ao se referir ao amigo
Fradique Mendes, lança sobre ele um olhar seduzido, detalhista, descrevendo-o
com admiração e certa sedução, como na seguinte passagem:
Trazia uma quinzena solta, duma fazenda preta e macia, igual à das
calças que caíam sem um vinco: o colete de linho branco fechava por
botões de coral pálido: e o laço da gravata de cetim negro, dando relevo
à altura espelhada dos colarinhos quebrados, oferecia a perfeição
concisa que já me encantara no seu verso (QUEIRÓS,1946:25)2 .
A imagem que o narrador vai construindo dessa personagem beira ao
excessivo, na linguagem, revelando um olhar seduzido, como ele mesmo diz: "o
que me seduziu logo foi a sua esplêndida solidez, a sã e viril proporção dos
membros rijos" (A.C.F.M., p.24).
Fradique, à época do primeiro contato com o narrador, havia completado 33
anos, o que poderia caracterizá-lo como um homem experimentado, maduro, e
esplêndido, como reforça, constantemente, o narrador: "Fradique Mendes
voltara de dentro, vestido com uma cabaia chinesa! Cabaia de mandarim, de
seda verde, bordada a flores de amendoeira- que me maravilhou e me
intimidou." (A.C.F.M.,p.29).
O visual bem cuidado, ainda que excêntrico, foge à convencional forma da
2
apresentação do masculino. O interesse do narrador por esse homem
extraordinário surgiu exatamente porque ele leu, no jornal Revolução de
Setembro, as Lapidárias- reunião de poemas de autoria de Fradique- que o
aproximavam da lírica baudelairiana, afastando-se da tradição e buscando
motivos emocionais fora das limitadas palpitações do coração:
(...)Mas além disso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poético
que me seduzia- o da Modernidade, a notação fina e sóbria das graças
e dos horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a
podemos testemunhar ou pressentir nas ruas que todos trilhamos, nas
moradas vizinhas das massas, nos humildes destinos deslizando em
torno de nós por penumbras humildes. (A.C.F.M.,p.6).
Percebemos que a estética literária de Fradique é bastante próxima da estética
dos decadentistas. Os decadentistas, negando a tradição, buscavam temas
novos para a literatura. Uma alternativa possível, como afirma SEABRA
(1975:52), é "a aparição freqüente da Idade Média, nebulosa e ideal, simbólica
ou decorativa, a substituir-se ao mundo contemporâneo". Na poesia de
Fradique, o narrador contempla "um solitário do século VI" (A.C.F.M., p.6), ou
"as façanhas do tempo em que seguira pelas Gálias, num bando alegre, as
legiões de César, depois as hordas de Alarico rolando para a Itália". (A.C.F.M.,
p.7), ou "o bom cavaleiro Percival (...) à busca do São-Graal, o místico vaso
cheio do sangue de cristo. (A.C.F.M., p.7).
Os decadentistas, revelando encontrarem-se em estado de um cansaço
intelectual, como afirma Décaudin (1976:18), numa tentativa de negar a estética
parnasiana, reivindicam uma nova estética e um novo fazer literário. A lírica de
Fradique representa bem essa tentativa de realização de uma nova poiésis, uma
prática de versificação que abordasse temas diferentes, ainda que buscados na
Idade Média, e novas experimentações na linguagem. Como diz o narrador, o
que o prendeu nas Lapidárias não foi a Ideia, mas a Forma:
uma forma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me
lembrava o verso marmóreo de Leconte de Lisle com um sangue mais
quente nas veias de mármore, e a nervosidade intensa de Baudelaire
vibrando com mais norma e cadência. (A.C.F.M., p.8).
Eça, via Fradique, nos revela a influência dos poetas malditos da literatura
francesa, como a nova estética que vinha se edificando das "ruínas do
Romantismo como sua derradeira incarnação." (A.C.F.M., p.9).
Citando Baudelaire, o narrador costumava provocar dois cônegos que moravam
ao seu lado:
3
Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
À cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!
(…)
Alors, oh ma beauté, dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j’ai gardé la forme et l’essence divine
De nos amours décomposés! (A.C.F.M., p, 9).
O maior entusiasmo do narrador, em relação a Fradique Mendes, deve-se ao
fato de ele ter encontrado um representante da nova estética, na cultura
portuguesa, e de tão apurado fazer literário, que pôde ser comparado a
Baudelaire, o grande poeta satânico: "Este poeta era português, (...) habitava
Lisboa, pertencia aos Novos, possuía decerto na alma, talvez no viver, tanta
originalidade poética como nos seus poemas!" (A.C.F.M., p, 12).
Como os poetas decadentistas, Fradique Mendes encontrou algo novo a ser
mirado: "Graças te sejam dadas meu Fradique bendito, que na minha velha
língua he mirado algo nuevo" (A.C.F.M., p.12), exclama o narrador.
Por outro lado, a imagem física de Fradique se opõe, de certa forma, à imagem
de Jacinto. Fradique está sempre alegre, bem vestido, de bem com a vida,
robusto e radiante, enquanto Jacinto vai-se esvaindo sob o peso da civilização,
perdendo a juventude e o brilho, como veremos logo adiante. O narrador da
Correspondência... nos confessa que achou Fradique "um varão magníficodominando
sobretudo por uma graça clara que saía de toda a sua força
máscula. Era o seu viço que deslumbrava. A vida de tão várias e trabalhosas
atividades não lhe escavara uma prega de fadiga" (A.C.F.M., p.25). Fradique é
descrito como um efebo, um jovem soberbamente viril e magnífico. No entanto,
entediado com a monotonia de uma existência sem grandes realizações, ele
está sempre em busca de algo novo que o despertasse para a vida plena e feliz.
A busca de novidade também é excessiva e excêntrica, e, às vezes, beira ao
grotesco. Uma vez, o narrador o surpreende recebendo uma estranha
comunicação da alfândega, sobre algum objeto importado: "tratava-se, como
sempre, da Alfândega, fonte perene das suas amarguras. Agora tinha lá
encalhado um caixote contendo uma múmia egípcia." (A.C.F.M., p.25).
Nesse mesmo encontro, os dois amigos discutem a produção literária na
França. Para Fradique, só havia artificialidade na poesia de Baudelaire e Victor
Hugo e "em França (...) não havia poetas. A genuína expressão da clara
inteligência francesa era a prosa" (A.C.F.M., p.32). Depois desse encontro,
Fradique empreende uma jornada pelo mundo, passando pelo Marrocos e Egito,
onde reencontra o seu amigo, o narrador:
4
Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, recolhi ao Cairo pela hora
mais quente, quando os muezzins cantam a terceira oração. (...)
Que homem, de entre todos os homens, avistei eu no terraço, estendido
numa comprida cadeira de vime, com as mãos cruzadas por trás da
nuca, o Times esquecido sobre os joelhos, embebendo-se todo de calor
e de luz? Fradique Mendes." (A.C.F.M., p. 38).
Fradique é um homem extraordinário. Um dândi por excelência, que até mesmo
ajuda na fundação de uma nova religião muçulmana:
À medida que ele falava do Bab, dessa missão apostólica ao velho
Sheik de Tebas, de uma outra fé surgindo no mundo muçulmano com o
seu cortejo de martírios e de êxtases, da possível fundação dum império
Babista- o homem tomava aos meus olhos proporções grandiosas. (A.C.
F.M., p.55).
As jornadas de Fradique estendem-se pela América, pelas antilhas, pelas
repúblicas do golfo do México, passando pelo Brasil, pelos Pampas, pelo Chile e
pela Patagônia, mantendo um estreito laço de amizade com o narrador, através
de correspondências que este "tumultuosamente atulhava de imagens e
impressões, e que Fradique miudamente enchia de idéias e de factos" (A.C.F.
M., p.61). Fradique diz ter viajado por toda parte viajável, ter lido todos os livros
de explorações e travessias porque, como ele mesmo dizia,
me repugnava não conhecer o globo em que habito até aos seus
extremos limites, e não sentir contínua solidariedade do pedaço de terra
que tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para além.
(A.C.F.M., p.87).
Errando pelo mundo em busca de aventuras e "bisbilhotices", Fradique conhece
diferentes civilizações e culturas, fixando-se, porém, entre Paris e Londres,
visitando regularmente a pátria portuguesa, onde se revigorava "percorrendo
uma província, lentamente, a cavalo" (A.C.F.M., p.92).Para Fradique, Lisboa só
lhe interessava e lhe agradava enquanto paisagem, já que estava marcada pela
imitação francesa. Na sua opinião, "Lisboa é uma cidade traduzida do francês
em calão", onde não se pode encontrar, sequer, pratos típicos da cozinha
portuguesa, como "o prato com macarrão do século XVIII, a almôndega
indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa cabidela de
frango, petisco dilecto de Dom João IV. (A.C.F.M., p. 95).
Fradique demonstra, assim, uma certa decadência de Portugal, que começou,
segundo ele, desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Há um tom
saudosista na fala de Fradique, um certo desejo de que Portugal pudesse voltar
a ser como era, antes da Democracia. A perda da originalidade da cultura
portuguesa, para ele, diminuía o resto do mundo. Constatando essas mudanças
ocorridas em sua pátria querida, Fradique vai mergulhando, irremediavelmente,
no gouffre decadentista. Em sua carta ao amigo G.F, ele confessa: "- Todos nós
que vivemos neste globo formamos uma imensa caravana que marcha
confusamente para o Nada".(A.C.F.M., p.108). A inutilidade do estar-no-mundo e
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o pessimismo diante da vida o faz concluir que "não há nada a fazer" (A.C.F.M.,
p. 111).
Numa discussão com Fradique, o narrador lhe apresenta a necessidade da
vinda de um novo cristo para redimir a humanidade. Fradique lhe diz que o novo
messias há de vir, mas logo será negado e indica que a única coisa a fazer é
cada um reunir pecúlio, comprar um revólver e "aos semelhantes que lhe
baterem à porta, dar, segundo as circunstâncias, ou pão ou bala".(A.C.F.M.,
p.112).
O narrador descreve a morte de Fradique de uma forma breve, e, de uma certa
forma, melancólica: "Fradique, como diziam os antigos, ‘tinha vivido’. Não acaba
mais docemente um belo dia de verão." (A.C.F.M., p.113). Fradique
representava, para o narrador, o homem europeu por excelência, dotado de
Beleza e Inteligência supremas, "o português mais interessante e mais sugestivo
do século XIX." (A.C.F.M., p. 65).
Michel Décaudin (1976:19), comentando Hartmann, diz que a resolução do mal
tenderá para a autodestruição. Acreditamos que Fradique, não encontrando uma
saída para a insatisfação do mundo presente, buscará sua extinção voluntária,
ao sair da festa da condessa de La Ferté, sem o seu agasalho, sabendo do
perigo da noite fria, favorecendo o surgimento do mal que o aniquilará. Já
acometido de tal enfermidade, ainda se expõe ao relento uma vez mais,
intensificando a gravidade da doença, que culminará em sua morte.
Também nesse aspecto, a personagem Fradique Mendes se diferencia da
personagem Jacinto, que transita da morte para a vida, metaforizando um
reencontro, uma restauração de uma família e de uma nação em decadência,
representando o florescimento de um novo jardim, revigorado, robusto e
rejuvenescido, como se fosse a imagem de Portugal restaurada.
Jacinto percorre uma trajetória inversa à trajetória de Fradique. Emigrado de
Portugal para Paris, onde vive num ambiente supercivilizado, o apartamento
202, como diz o narrador, essa personagem sofre do "mal da fartura".
O narrador de A Cidade e as Serras, Zé Fernandes, nos diz que "desde o berço,
onde a avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a ‘sorte ruim’, Jacinto
medrou com a segurança, a rijeza, a seiva de um pinheiro das dunas." (A.C.S.,
p.50). Logo no início da narrativa, Jacinto é comparado com uma planta. É
significativo notar que o Jacinto é uma erva universalmente afamada pela beleza
das flores, e pelo seu perfume, sendo encontrada em regiões serranas, como
nos informa o Dicionário Aurélio (1986: 979).
Apesar de o nome estar intimamente ligado ao vegetal e à serra, Jacinto prefere,
inicialmente, a cidade. Para ele, "o homem só é superiormente feliz quando é
superiormente civilizado" (A.C.S., p. 51), idéia que não se separava da imagem
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da cidade grande, funcionando como um organismo poderoso, repleto de
engrenagens, cada uma exercendo uma função particular e essencial. Zé
Fernandes descreve Jacinto da mesma forma que o narrador d’A
Correspondência... descreve Fradique:
Este delicioso Jacinto fizera então vinte e três anos, e era um soberbo
moço em quem reaparecera a força dos velhos jacintos rurais. Só pelo
nariz, afilado, com narinas quase transparentes, de uma mobilidade
inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia às
delicadezas do século XIX. O cabelo ainda se conservava, ao modo das
eras rudes, crespo e quase lanígero: e o bigode, como o de um celta,
caía em fios sedosos, que ele necessitava aparar e frisar. (A.C.S., p.56).
Sete anos depois desse encontro, Zé Fernandes retorna de Portugal a Paris,
para reencontrar o seu admirável amigo, e se depara com o excesso de
civilização instalado no 202, e vê a antiga imagem apolínea e viril de Jacinto
substituída por uma imagem fisicamente decadente:
Reparei então que o meu amigo emagrecera: e que o nariz se lhe afilara
mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante
cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que
perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora
o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que
corcovava. (A.C.S., p. 59).
Novamente o adjetivo "murcho" remete-nos ao universo do vegetal, e passamos
a acompanhar um jacinto em estágio de degenerescência. A modernidade
invade o 202. Zé Fernandes verifica a infinidade de aparelhos e botões
instalados na casa de Jacinto, sem compreender bem a utilidade do acúmulo de
tanta civilização:
E enquanto o meu amigo, curvado sobre a placa murmurava impaciente
"está lá? Está lá?", examinei curiosamente, sobre a sua imensa mesa de
trabalho, uma estranha e miúda legião de instrumentozinhos de níquel,
de aço, de cobre, de ferro, com grumes, com argolas, com tenazes, com
ganchos, com dentes, expressivos todos, de utilidades misteriosas. (A.C.
S., p. 60).
Além de tantos instrumentos da civilização, o 202 é também atulhado de livros,
num acervo de 30 mil volumes. Jacinto participa da vida social parisiense, mas é
perceptível o seu desvanecimento. Tendo experimentado de tudo, assim como
Fradique, Jacinto é acometido do tédio e do pessimismo. Mesmo circundado de
amigos, após uma ceia em sua casa, ele tece o seguinte comentário sobre a
inutilidade das coisas e do mundo:
(...) a única emoção, verdadeiramente fina, seria aniquilar a civilização.
Nem a ciência, nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar
um gosto intenso e real às nossas almas saciadas. Todo o prazer que
se extraíra de criar estava esgotado. Só restava, agora, o divino prazer
de destruir. (A.C.S., p. 91). 7
É o tédio que surge a partir do momento em que a personagem sente que já
experimentou todas as coisas e nada há mais a ser criado. Tudo já foi dito. Tudo
já foi feito. Por isso "a carne é triste", e a vida, "uma maçada". Enfastiado de
tanta civilização, Jacinto é tomado de melancolia, perdendo o viço. Um dia,
porém, recebe uma carta, vinda da sua quinta em Tormes, Portugal, enviada
pelo seu procurador, o Silvério, notificando-o do desabamento da velha igrejinha
nas serras, onde jaziam os restos mortais dos seus avós Jacintos e do seu
adorável avô Galeão. Esse incidente, envolvendo a memória dos seus familiares
queridos e as raízes da sua tradição, desperta em Jacinto o desejo de retornar a
Portugal, às serras de onde fora transplantado, para reencontrar-se com a sua
verdadeira identidade portuguesa.
Ao decidir regressar a Tormes, Jacinto se encarrega de levar consigo boa parte
da civilização. O seu desejo é ter, nas serras, o conforto da cidade:
Começou então no 202 o colossal encaixotamento de todos os confortos
necessários ao meu príncipe para um mês de serra áspera- camas de
pena, banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divâs profundos, cortinas
para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos brancos. (A.
C.S., p.l33).
Porém, mais uma vez, um incidente providencial faz com que todas as
bagagens sejam desviadas para Alba-de-Tormes, na Espanha, devido à
confusão de nomes de lugares que se deu na transportadora contratada por
Jacinto, deixando-o "aliviado" do peso da supercivilização. Assim, Jacinto e o
amigo Zé Fernandes chegam às serras, onde fica sua quinta, sua terra, sua
tradição, suas raízes, apenas com a roupa do corpo e, ironicamente, com um
jornal, metonímia da civilização e que, nas serras, não tem utilidade alguma:
Ali ficávamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem
procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o
paletó alvadio, donde surgia o Jornal do Comércio. Jacinto, uma
bengala. Eram todos os nossos bens. (A.C.S., p.146).
Destituídos de todas as bagagens que levavam para Tormes, os dois amigos
começam a subir a serra, e o narrador geral vai tecendo considerações sobre a
primazia do campo em relação à cidade. Aqui, Portugal passa a ser alegorizado
pela excelência do ar campesino e pela exuberância da natureza serrana, como
um lugar ímpar: "com que brilho e inspiração copiosa a compusera o Divino
Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste
seu Portugal bem-amado!" (A.C.S., p. 147). A descrição suntuosa da serra se
sobrepõe a qualquer descrição do ambiente citadino e civilizacional. As imagens
da natureza exuberante, rica e fresca, enchem a vista e a alma dos dois
viajantes. Logo, a indignação de Jacinto com o sumiço das malas é substituída
pelo gozo do estar na serra, pela alegria de reencontrar Portugal, a sua pátria
querida:
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O ar fino e puro entrava na alma, e na alma espalhava alegria e força.
Um esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...
Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava:
-Que beleza! (A.C.S., p. 148).
A chegada à quinta torna Jacinto, novamente, o senhor de Tormes, o oligarca
rural que, tendo perdido, acidentalmente, o contato com todo e qualquer tipo de
civilização, desvela o homem rústico, vegetal da serra. Se por um tempo houve
o transplante de Jacinto para Paris, no usofruto das descobertas tecnológicas e
científicas e em comunhão com os prazeres da cidade, mesmo das leituras dos
filósofos da época, a narrativa muda consideravelmente a dicção. A natureza
participa ativamente da ação, com suas manifestações divinas: ora a chuva, ora
o vento nos ramos em flor, diluindo pela serra o perfume incomparável.
Outro aspecto interessante a ser observado no momento do reencontro de
Jacinto com as serras é a apreciação da comida tipicamente portuguesa.
Lembremo-nos da indignação de Fradique Mendes quanto à influência da
culinária francesa em Lisboa, onde não é possível, segundo ele, saborear um
prato genuinamente português. Em Tormes, o caseiro Melchior se encarrega de
preparar "o jantarinho de Suas Incelências" (A.C.S., p. 154). Descreve o
narrador:
Os copos, de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho
que neles passara em fartos anos de vindimas. A malga de barro,
atestada de azeitonas pretas, contentaria Diógenes. Espetado na côdea
de um imenso pão reluzia um imenso facalhão. (A.C.S., p. 155)
O sabor do "jantarinho" preparado pelo criado Melchior faz o senhor de Tormes
se esquecer da civilização de que tanto dependia:
— Deste arroz com fava nem em Paris Melchior amigo!
O homem ótimo sorria, inteiramente desanuviado:
— Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até
Suas Incelências se riam...Mas agora, aqui, o Sr. D. Jacinto, também vai
engordar e enrijar! (A.C.S., p. 155).
acinto simboliza, de certa forma, a identidade portuguesa. Jacinto representa a
Nação Portuguesa, o atraso em meio ao desenfreado desenvolvimento
civilizacional europeu. A quinta de Tormes e a tradicional família dos Jacintos é
a imagem desse país à espera de uma restauração. Não é por acaso que
Jacinto será confundido com D. Sebastião, como veremos adiante.
Na cidade, Jacinto corcovara, se esvaecera, murchara. Na serra, a natureza se
encarrega de restaurá-lo. Zé Fernandes, depois de passar alguns dias longe do
seu amigo, ao reencontrá-lo, compara-o
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a uma planta estiolada, emurchecida na escuridão, entre tapetes e
sedas, que, levada para o vento e sol, profusamente regada, reverdece,
desabrocha e honra a natureza! Jacinto já não corcovava, sobre a
arrefecida palidez de supercivilizado, o ar montesino, ou vida mais
verdadeira, espalhava um rubor trigueiro e quente de sangue renovado
que o virilizava soberbamente. (A.C.S., p. 164).
Jacinto e a planta são equivalentes. Restaura-se um jardim. Restaura-se
Portugal, retornando-se às origens, buscando raízes de uma nação tipicamente
agrária, rural, mesmo estando inserida numa Europa supercivilizada. O orgulho
de ser português é ser diferente. O amigo Zé Fernandes constata, maravilhado,
o arraigamento de Jacinto às serras:
Jacinto lançara raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era
realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiqüíssimo
chão, donde brotara a sua raça, e o antiqüíssimo húmus refluísse e o
penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase
vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto
amava. (A.C.S., p. 182)
Revigoradas as forças, encontrada a paz no ambiente campesino, Jacinto cuida
de reparar também o seu jardim, a Casa Portuguesa, esquecida nas serras, em
ruínas. O casarão recebe os tratos necessários para abrigar o extraordinário
português. Repara-se o piso, as janelas, o telhado:
Na varanda, sobre uma pilha de ripas, reluzia num raio de sol uma
banheira de zinco. Dentro encontrei todos os soalhos remendados,
esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas e nuas, refrigeravam
como as de um convento. (A.C.S., p. 162).
Também é construída uma nova igreja para abrigar os restos mortais dos seus
antepassados. E a harmonia cobre toda a serra:
— Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza...Num simples enterrar de
ossos, quanta graça e beleza!
Na capelinha nova, dominando o vale da Carriça, solitária e muito nua,
no meio de um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
frescura de arbusto, dois moços seguravam à porta molhos de tochas,
que o Silvério distribuiu, a passos graves, com cortesias, soleníssimo. (A.
C.S., p. 175).
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A bondade do senhor de Tormes estende-se aos seus serviçais. Jacinto visita a
sua propriedade e verifica que ali existem pessoas vivendo em condições de
vida subumanas, o que o deixa indignado. Então, dá ordens ao encarregado da
quinta, o Silvério, para que gaste o que for necessário para garantir o mínimo de
conforto a essas famílias que se agregam às suas terras. Por tais atos, logo
Jacinto é comparado ao messiânico D. Sebastião, que haveria de restaurar
Portugal. Diz-nos o narrador: "por toda a serra afirmava que aquele bom senhor
era El-Rei D. Sebastião, que voltara!" (A.C.S., p. 202). Mais adiante, Zé
Fernandes, encontrando-se com o tio João, interroga-lhe a esse respeito:
- Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios,
que El-Rei D. Sebastião voltara?
(...)
- Talvez voltasse, talvez não voltasse...Não se sabe quem vai, nem
quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão
dentro. Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido,
alma é pessoa. (A.C.S., p., 218).
O sábio tio João responde a Zé Fernandes a possibilidade de uma
reencarnação. Portanto, literariamente, é possível pensar na imagem de Jacinto
como a metáfora da restauração de Portugal. Na serra, Jacinto reverdece, se
casa, brota, floresce e frutifica, cumprindo a lei da natureza. Na serra, Jacinto
restaura a Casa Portuguesa:
E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já
cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu príncipe já não é o
último Jacinto, Jacinto ponto final- porque naquele solar que decaíra,
correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha,
minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. (A.C.
S., p. 221).
Como diz Zé Fernandes, "Aquele ressequido galho de cidade, plantado na serra,
pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, engrossara de tronco,
atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno". (A.C.S., p. 223).
Para concluir, reafirmamos a diferença das imagens da decadência
apresentadas neste ensaio, ao comparar as duas personagens Fradique
Mendes e Jacinto como alegorias do dândi, que realizam movimentos inversos
nas duas narrativas queirosianas. De um lado, o pessimismo que conduz à
morte, e do outro, o reencontro com a Pátria Portuguesa e a restauração de um
jardim!
Notas
11
1 Cumpre ressaltar que Fradique nasceu em Paris, filho de emigrantes
portugueses. Apesar disso, mantém no 202 a herança cultural do avô Galeão,
como livros e alguns móveis e objetos importados de Portugal. Fradique também
é considerado pelos franceses um genuíno português, principalmente no uso da
língua do seu país de origem, sem que fosse possível constatar qualquer
sotaque que denunciasse o estrangeirismo em sua fala.
2 A partir dessa citação, sempre que nos referirmos à obra A Correspondência
de Fradique Mendes, usaremos apenas as inicias A.C.F.M e o referido número
de página. Quando nos referirmos à obra A Cidade e as Serras, usaremos as
inicias A. C. S e o mesmo procedimento para indicação de número de página..

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