Resumo DOM CASMURRO: O TEXTO QUE ME ESCREVE

DOM CASMURRO: O TEXTO QUE ME ESCREVE
RESUMO:
O romance Dom Casmurro é tratado a partir dos significantes:
tempo, infância, amor, desejo do Outro, mulher-Capitu, lacuna,
resto. Freud, Lacan e Shakespeare estão presentes como
operadores de leitura.

Quero, de início, manifestar minha alegria diante do acaso. O auditório
escolhido para a defesa pública da minha dissertação de mestrado, em Literatura
Brasileira, tem o nome da professora Sônia Viegas. A professora foi, durante minha
graduação em Filosofia, quem me iniciou no prazer da literatura. Por isso, dedico
à sua memória este texto e desejo oferecê-lo ao homem que, além de seus oitenta
anos, é o mais sábio que conheço: meu amigo, professor Martinho Trindade Monteiro.
Há quarenta anos, aproximadamente, Dom Casmurro faz parte da minha vida.
O fio da memória alinhava o tecido esmaecido da minha infância. No
ateliê da lembrança, nos suaves balanços da rede pendurada no alpendre da casa
paterna, procuro a criança que fui, enovelada pelas vozes que vinham das frinchas
da janela do tempo. Duas mulheres, no frio de uma manhã ensolarada de abril,
enquanto preparavam seus planos de aula, discutiam e tomavam posições, ora iguais,
ora diferentes, sobre uma outra mulher. O nome dela eu não conseguia memorizar.
188
Também não o reconhecia nos nomes das nossas vizinhas, nem entre os nomes das mortas
que eu lia nas lápides, enquanto minha avó rezava durante nossas idas, incansáveis,
ao cemitério.
Minha infância evaporava enquanto minha mãe e minha tia se entregavam
aos trabalhos e aos dias da escola, além de se debruçarem sobre o destino daquela
mulher. Do umbral do alpendre da casa eu olhava para o infinito da várzea. Meus
olhos escuros eram coloridos pelo verde do pasto, onde meu pai, com seus laços e
cabrestos, montado no seu baio, dominava ferozes animais.
Eu queria era a vida do meu pai. No entanto, por mais que eu corresse em
direção à natureza e a ele, mais forte trovejavam em mim as palavras silenciosas
daquelas mulheres sobre a desconhecida, seu olhar, seu silêncio e seu enigma. Tudo
isso tornou-se um relicário intocável e impronunciável dentro de mim. Na encruzilhada
da minha infância, um passo de escuridão e de claridade moldava minha esfinge.
Tive medo, naquele tempo, que a mulher desconhecida viesse a estragar os
dias felizes que eu sonhava para meu pai e minha mãe.
Mais tarde, já na escola, quando vi minha primeira professora, pensei
que minha mãe e minha tia estivessem, talvez, se referindo e falando dela quando
conversavam sobre aquela mulher cujo nome eu ainda não conseguia memorizar. Uma
mistura de ternura e paixão pincelou aquele nosso encontro. Minha escola primária
foi lugar de um romance, que feneceu quando minha professora partiu e voltou, muito
tempo depois, com as mãos sempre atadas às de um outro homem.
Vieram os anos da escola secundária e da Universidade, longe da casa do
pai. A distância da infância era tecida com a chegada da literatura e do texto da
filosofia. A partir da transmissão filosófica da professora Sônia Viegas, mergulhei
na literatura na busca de um sentido, naquele época, para o viver. A Filosofia me
abriu dois caminhos: a psicanálise e a literatura.
A psicanálise, com o tempo, tornou-se o lugar do trabalho para viver. A
literatura passou a significar a paixão para viver. Depois que deixei a casa dos
meus pais, já no estrangeiro, li e estudei somente os europeus. Exilei-me nos textos
de Flaubert, Proust, Rimbaud e Gide, que me reenviaram ao escritor brasileiro
Machado de Assis. A literatura brasileira era-me, até então, unheimlich.
189
Em 1997, durante o colóquio Nouvelles Directions de la Recherche
Proustienne, no Castelo de Cerisy-la-Salle, após as jornadas de discussões, eu
voltava para meu quarto, cansado de falar e ler em francês e tomava pela primeira
vez um livro, presente da professora Zélia Cerqueira, do qual eu muito já sabia.
Sabia dele através de resenhas, de estudos críticos, de conferências e de aulas, mas
nunca o havia lido. Era o livro da minha infância: Dom Casmurro. Naquele Castelo da
Normandia, entre brumas e discussões proustianas, eu descobria que Dom Casmurro era
uma biografia. Machado de Assis havia escrito, antes de mim e sem o saber, a minha
primeira biografia.
Quando retornei a Belo Horizonte, a leitura do livro precipitou em mim
um sonho sobre a minha desconhecida: Capitu. Depois de uma sessão de psicanálise,
decidi que iria retornar à universidade para escrever um texto sobre Dom Casmurro.
Se, como quer o poeta, sempre escrevemos para recordar a verdade, para mim, naquele
momento, escrever seria uma invenção da verdade, um modo de recordá-la mais exatamente.
Meu desejo era ler Dom Casmurro a partir da história do livro na minha vida. Logo,
a lembrança, o desejo e a mulher seriam os significantes que encadeariam a trama do
meu texto – talhado de nódoas. Foi com temor e esforço que decidi abrir o oratório
da infância, cujo curso havia sido interrompido quando a sua crisálida transbordava
e derramava pelos lados da vida.
Em 1997, formulei meu desejo através de um escrito-projeto que foi
aceito pela banca de seleção de mestrado e acolhido pela professora orientadora Dra.
Ana Maria Clark Peres.
Lembrar, repetir e escriturar. Assim Dom Casmurro, através do trabalho
da escrita – do risco –, borda com as palavras e com a tinta das lembranças uma tela.
Nessa tela, os seus personagens e as suas próprias palavras são enigmas de figuras
– rébus – diante dele. As palavras do narrador-autor escrevem e tentam suturar a
infância perdida, o primeiro amor, a vida em breves instantes, enfim, as suas
memórias e desmemórias que, entre linhas, entre palavras e entre pontos, deixam
escapar o real do sexo e da morte.
No livro Dom Casmurro, memória e desmemória fiam o tecido esburacado do
texto no qual se alojam o narrador e os significantes que o constituem: o tempo, a
infância, o amor, o desejo do Outro, a mulher – Capitu, a lacuna e o resto dos restos.
190
Ao fazermos uma leitura-crítica, tendo em vista a idéia de Oscar Wilde
de que o papel do leitor-crítico é ler e recriar, com sua própria alma, uma obra
alheia, recorremos a Shakespeare, Freud e Lacan na medida em que Dom Casmurro, de
maneira direta ou indireta, concorda com eles, mas também os contraria ou os
ultrapassa. Não sonhamos mais com a síntese hegeliana e, sim, com a possibilidade
de fazer existir um saber que seja efeito de leitura. A leitura, para nós, é
conseqüência da história do texto, desde sua publicação – a sua fortuna crítica –,
e fundamentalmente está atrelada à história pessoal daquele que lê.
Partimos da tese de que a literatura tem o real como objeto de desejo,
mesmo sabendo da impossibilidade de alcançá-lo. Essa impossibilidade faz-se presente
no texto de Dom Casmurro, quando o narrador tem a ilusão de, ao narrar, apreender
o mistério do feminino, do desejo ou até mesmo da própria vida que se esvai durante
o viver. Mesmo assim, não cede quanto ao desejo de narrar e de inscrever o que não
cessa de não se escrever.
O texto machadiano nos implicou de tal maneira, que nossa tarefa principal
neste trabalho foi a de nos deixar guiar pelas entrelinhas do romance, tendo em
vista os operadores de leitura: os princípios psicanalíticos.
Formulamos a afirmativa de que Dom Casmurro é um romance que faz uma
borda: o nome. É uma escritura traçada por Machado de Assis, enunciada por Bentinho/
Santiago/Casmurro, agora lida por nós, acerca do desejo de Capitu. Capitu é como um
rastro, pegadas, trilhas que ainda não são estradas, somente traço do um – unário.
É o ausente, o não falado, a escrita, a letra, que demandam significação. Tem um
estatuto de um esquecimento psíquico, ou de um esquecimento de intenção envelopando
o desejo, morada do não-dito do texto, o interdito – vociferado pelo desejo do Outro.
Essa mulher sem rosto que se apresenta nas entrelinhas do texto de
Machado de Assis funciona como um enigma de figuras (ein Bilderrätsel) oníricas, ou
rébus, convocadores de significâncias. Seu nome, Capitolina, Capitu, diz pouco o
que ela é. Se buscarmos as metáforas do seu ser, descobrimos seu olhar de cigana
oblíqua e dissimulada, seus olhos de ressaca, seu primeiro beijo testemunhado pela
mãe, ou sua lágrima na cena do enterro de Escobar. Tudo isso é de uma inconsistência
tal de significados, que só nos resta fazer margem, borda, bascular o que é
impossível de dizer: Capitu.
191
Capitu captura os homens e os críticos e os transforma em caça para os
seus cães. É outro nome de Diana. É uma mulher como sintoma dos homens. É êxtase
estético do autor. As lembranças narradas sobre ela, sobre seu romance com Bentinho
ou com Bento Santiago e, quem sabe lá, com outro homem, têm uma falta de realidade
tal que nada mais são do que substituição de outra coisa. A tessitura das palavras,
em feixes de lembranças, na obra machadiana marca a verdade não-toda. Capitu deixa
os homens, como Santiago, aturdidos com a dúvida e deixa as mulheres a interrogarem:
o que ela quer? Logo, o estilo não é mais o homem mas, sim, o objeto-quase causa de
desejo: Capitu.
É por esse viés que nos aproximamos do texto de Dom Casmurro, não para
compreendê-lo bem, inteiramente, nem para lê-lo direito, nem para bem sabê-lo, já
que tudo isso para nós é da ordem do impossível.
Apesar das semelhanças entre a construção analítica e a construção
literária, é preciso assinalar que Dom Casmurro não é um sujeito falante, aquele da
associação livre, ele é uma personagem e, como tal, não é real. Logo, ele não é um
sujeito passível de uma psicanálise.
Durante muito tempo a crítica literária comparou esse romance de Machado
com o Otelo de Shakespeare, tendo em vista o ciúme dos dois personagens. Neste nosso
trabalho convocamos outro texto de Shakesperare, o Hamlet, para lermos o texto
machadiano. Delimitamos semelhanças e diferenças entre Casmurro e Hamlet, na medida
em que os dois, com sua retórica, encobrem sua desrazão. Tanto Hamlet se faz passar
por louco, para atingir seus fins, como Casmurro passa-se por lúcido, para atingir
seu fim específico de nos convencer de um adultério.
Pode-se, assim, ensaiar, repetir e insistir, junto com Dom Casmurro,
que o texto escreve aquilo que não pode ser dito. O que ele diz sem saber que o diz
é que a verdade é não-toda e ele só pode semidizê-la. Se Freud indicou que é preciso
tomar o desejo (Wunsch) ao pé da letra, o que Dom Casmurro nos permite é trilhá-lo
como uma voluta que, através das letras, fonemas, orações, construções textuais,
enfim, livro, registra aquilo que é impossível de capturar: o eu.
Dom Casmurro sabe, desde o início, sem o saber, que sua narrativa é
lacunar e que ela só o leva à "ilusão" das inquietas sombras. Mesmo assim quando
192
Belo Horizonte, v. 6, p. 1–253, ago. 2003
narra o faz como quem "horta", "jardina", lê e vive. Na abertura do livro adianta
para seu leitor que o seu objetivo de atar as duas pontas da vida fracassara. Ele
avisa: "não consegui recompor o que foi nem o que fui".
O texto de Dom Casmurro é invenção no campo do significante, a partir de
uma língua perdida, aquela que se foi, que se evaporou no instante em que a vida era
vivida. Se, a princípio, Dom Casmurro deseja atar as duas pontas da vida, ele
anuncia o desejo, não para objetivá-lo mas, simplesmente, para mantê-lo: temos
assim uma realização de desejo e não sua satisfação.
Se, no texto de Hamlet, o personagem transita entre dois mundos – o dos
vivos e o dos mortos –, chegando a sua dúvida cruel entre "ser ou não ser", Dom
Casmurro, em sua suposta identificação com o Hamlet, desvia-se de Hamlet para
instaurar não o ser ou o não ser, mas o falto eu mesmo. Assim nasce a narrativa,
costurada pelas lembranças da infância, morada do romance familiar.
Se Dom Casmurro se lembra da sua infância e do seu primeiro amor é para
instaurá-los como perda e não para restaurá-los – esta é a escritura casmurriana.
Desta maneira, só podemos tocar no eu que falta através da fruição dos lábios que
narram. Ele, o eu, é narrado mas não fala, não pode ser dito e, no entanto, é falado.
A psicanálise, a partir das suas construções, nos revela o sujeito
falante e falado que tem seu inconsciente estruturado pela linguagem. A tragédia do
Hamlet, no seu descrédito com as palavras, nos leva ao silêncio dos restos. O texto
machadiano, diferentemente, nos conduz não para o silêncio sepulcral, mas para o
resto dos restos. O resto não fecha o livro, mas causa o devir de outras leituras
para as quais o narrador nos convoca.
O encontro que estabelecemos entre os textos da psicanálise e os textos
de Shakespeare e Machado, não teve como pressuposto reduzir esses últimos aos
primeiros. O que ensaiamos o tempo todo foi a intertextualidade, quer dizer, a
produção de uma leitura a partir desse encontro. Mesmo quando Dom Casmurro e a
teoria psicanalítica se debruçam sobre as lembranças, as memórias e as desmemórias,
eles o fazem com objetivos diferentes, alcançando cada um sua saída.
O mesmo se dá entre Hamlet e Dom Casmurro. São textos que evidenciam a
dúvida dos personagens, o medo da morte, o enigma do feminino e o desejo; no
193
n Belo Horizonte, v. 6, p. 187-195, ago. 2003 n
entanto, eles constroem estes temas e os evidenciam de maneira muito particular. Dom
Casmurro, para nós, marca sua singularidade na construção acerca do eu, que não tem
a marca do cartesianismo, nem o desejo do absoluto hegeliano. Sua marca, singular,
está no enunciado: "falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo". Dom Casmurro é uma
escritura do não-saber, cujo efeito é a lacuna.
Dom Casmurro não é um livro sobre a morte, nem tampouco sobre a vida,
mas relativo à vida. É um livro sobre o que deseja uma mulher, já que esta carrega,
desde o início, a vida e a morte. Capitu-menina-A Mulher passa, assim, a ser causa
de toda a trama do livro, como também mulher-causa da existência da pergunta que
mantém o narrador e o leitor vivos. Se a imagem de Capitu persegue o narrador nas
suas fantasias e no seu pensamento, e durante toda a sua vida, como ele, somos
capturados pelo enigma daquela que se desloca no discurso dos capítulos e se
instaura definitivo no suposto fim: e bem, e o resto?
Capitu e os capítulos deixam o texto esburacado, sem término. O narradorautor
maneja a construção do texto literário tentando apreender aquilo que nos
escapa e sobra: Capitu e os capítulos. Capitu(rá-)los, já que sempre escapam à
significação, é o que repetimos.
Os capítulos brevíssimos compõem um só verso, rasurando e ferindo o real
da mulher e da morte. A forma do texto se constrói com base em ladrilhos, de modo
que esses longos e curtos capítulos são edifícios, compostos por numerosos
significantes-ladrilhos, melhor ou pior cimentados. O que fia a palavra no texto é
a lacuna do falto eu mesmo. A ferida que tudo isso causa é suturada pelas orações
intermináveis e pelas reticências que tentam estancar o real que atravessa o texto
nas suas entrelinhas. Dessa maneira, o livro e os capítulos só têm aparência de
breves, já que neles inscreve-se o desejo, que dura a eternidade do instante.
Sempre desconfiamos que a referência constante e a importância que o
livro Dom Casmurro teve e continua tendo, para a crítica e para o leitor, são porque
nele habita uma das questões fundamentais dos homens e das mulheres: o que quer uma
mulher? Essa questão se desdobra em outra: o que quer a vida?
Finalmente, concluímos retomando a tese de que o texto de Machado de
Assis, as lembranças de Casmurro e nosso trabalho nada mais são do que uma tela
194
escrita, onde as imagens são produzidas pelo discurso, forma que Machado de Assis,
Casmurro e nós encontramos para margear o impossível de dizer: o real.
E bem. E o resto?
Podemos dizer, ainda, neste fim-abertura de um outro texto que começa a
balbuciar, que o sujeito que narra não é o sujeito narrado. Ele narra não o sujeito
do vivido – o sujeito factual – mas sim aquele que surge nas entrelinhas do texto
e sua dimensão é a ficção. Aquele que viveu desapareceu no vivido. Já o narrado
emerge das lembranças e das narrativas, por isso tem o valor da lembrança. Dom
Casmurro não faz síntese, nem conciliação entre a vida e a narrativa. Uma visita a
outra, mas uma não é a outra. Uma diz da outra nos traços que repetem do real. Já
que o que falta é eu mesmo, o que nos resta, através do trabalho, é inventar a
significância da vida. Se existe a significância do sonho para Freud, podemos pensar
que Dom Casmurro descobriu a significância do falto eu mesmo. Deixemos, mais uma
vez, as palavras com o narrador-autor: "Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro
que falta".
O eu unificador das experiências e conciliador das sínteses é o grande
ausente. O narrador chega a nos dizer que "palavra puxa palavra". Logo, a palavra
que puxa a palavra é sua invenção, sua ficção literária, que dá consistência àquilo
que falta, o eu mesmo. Essa lacuna é o seu debuxo primitivo que o faz escrever na
trama do desejo: tela da lembrança.
O que quisemos, neste nosso percurso, foi não tomar Dom Casmurro como
pretexto para confirmar alguns pontos da constituição subjetiva. Assim, ele passa
à função de causa da produção introduzindo o leitor. Esse leitor torna-se o sujeito
que se divide diante do texto e é convidado a pôr algo de si numa dimensão que
compromete seu desejo. A lacuna instaurada pelo "falto eu mesmo" não pode ser tamponada
pelas lembranças, nem quando escritas. As lembranças somente podem anunciá-la.
Com a psicanálise, ou até mesmo sem ela, todos acabam sempre se tornando
um personagem do romance que é a sua própria vida.
Ao terminar a escritura do texto, tive um sonho! Não me restou quase
qualquer lembrança dele. Durante as associações que formulei sobre esse sonho, um
enunciado em ruínas vociferou: "Este texto que eu acabei de escrever...". Antes que
195
n Belo Horizonte, v. 6, p. 187-195, ago. 2003 n
eu completasse a frase fui interrompido por uma outra voz: "Não foi você quem o
escreveu, foi ele quem te escreveu".
O texto me escreveu: travessia de um palude. Será que é por isso que
tenho perdido o desejo de recordar? E o pó do esquecimento deu lugar ao luto? Minha
casmurrice, deixei-a no branco das folhas e agora falta "eu mesmo" e esta lacuna
será tudo. Deste processo, herdei algo que não recebi de ninguém: o desejo de viver.
ABSTRACT:
This essay discusses the novel Dom Casmurro, focusing on
the following terms: time, childhood, love, the desire of
the other, Capitu, gap, remains. This reading is informed
by Freud, Lacan and Shakespeare.
KEY WORDS: Dom Casmurro, psychoanalysis, memory, desire of the
other, woman.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MACHADO DE ASSIS. Dom Casmurro. Org. Afrânio Coutinho.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 807-944. (Obra
Completa, v.1).
MARTINS, Geraldo Majela. Dom Casmurro – tela escrita
da lembrança: a trama do desejo. Belo Horizonte:
Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas

Nenhum comentário: